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sexta-feira, 10 de junho de 2011

MALÁRIA: Escudo contra a superinfecção


Graças à restrição de ferro causada no fígado do hospedeiro, a própria infecção pelo parasita da malária previne a ocorrência de uma segunda infecção, mais severa, indica estudo publicado na Nature Medicine com participação brasileira

10/06/2011
Por Fábio de Castro
Agência FAPESP – Em áreas endêmicas de malária é comum que as pessoas sejam picadas diversas vezes pelo mosquito que transmite a doença. Mas, graças à restrição de ferro causada no fígado do hospedeiro, a própria infecção pelo parasita da malária previne a ocorrência de uma segunda infecção.
A conclusão é de um estudo realizado por um grupo internacional de cientistas, com participação brasileira. Os resultados do trabalho foram publicados em maio na revistaNature Medicine.
De acordo com os autores, o estudo poderá ter impacto nas políticas mundiais de saúde que indicam suplementação de ferro para crianças anêmicas. Em áreas endêmicas para malária, a administração de ferro pode ocasionar, segundo o estudo, superinfecções.
O trabalho foi realizado no Instituto de Medicina Molecular (IMM), em Lisboa (Portugal), com participação de cientistas da Universidade de Oxford (Reino Unido). A pesquisa foi coordenada por Maria Mota, diretora da Unidade de Malária do IMM, e teve colaboração de Sabrina Epiphanio, do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Epiphanio colaborou com o estudo durante seu pós-doutorado, realizado entre 2005 e 2008 no laboratório de Mota no IMM. A primeira autora do estudo, Silvia Portugal – atualmente pesquisadora do National Institutes of Health (NIH), nos Estados Unidos, trabalhou por três meses no laboratório de Epiphanio, na Unifesp, como pesquisadora visitante.
Atualmente a cientista brasileira realiza na Unifesp uma pesquisa sobre síndrome respiratória associada à malária, com apoio da FAPESP por meio do Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes.
De acordo com Epiphanio, que trabalha há nove anos com temas relacionados à malária, o trabalho publicado pelo grupo internacional é um dos raros que aborda simultaneamente as fases hepática e sanguínea da malária, simulando a situação de uma área endêmica na qual as vítimas podem ser picadas diversas vezes pelos insetos transmissores.
“Utilizamos modelos de camundongos infectados pela malária já na fase sanguínea e os infectamos pela segunda vez com a fase hepática. Quando medimos a infecção no fígado dos animais, observamos que a resposta da segunda infecção era muito mais baixa do que a primeira. Isso talvez explique por que nem todos que contraem a doença em áreas endêmicas vão a óbito”, disse à Agência FAPESP.
O próprio sistema funciona como um mecanismo de controle. Se a resposta da segunda infecção fosse tão intensa como a primeira, o hospedeiro teria uma superinfecção, desenvolvendo uma forma mais severa da doença, como uma malária cerebral, uma anemia severa, ou uma síndrome respiratória. Nesses casos, o índice de mortalidade é muito mais alto e a reversão do quadro clínico se torna muito difícil.
“Nossa primeira suspeita foi que a proteção proporcionada pela segunda infecção estaria relacionada a uma resposta do sistema imune. Mas realizamos uma série de experimentos com insetos deficientes para linfóticos e verificamos que isso não afetava o fenótipo: independentemente da resposta imunológica, o impacto da segunda infecção era sempre menor”, disse a pesquisadora.
Suplementação de ferro
Com a hipótese da resposta imunológica descartada, o grupo prosseguiu com os testes e descobriu que a proteção produzida pela segunda infecção estava relacionada ao aumento da hepcidina – um hormônio produzido pelo fígado que se encarrega de redistribuir pelo resto do organismo a quantidade de ferro presente no órgão.
“O parasita precisa do ferro para se desenvolver e, com a primeira infecção, retira o ferro da circulação sanguínea, diminuindo também sua abundância no fígado. Na segunda infecção, o fígado tem pouco ferro disponível e o parasita não consegue se multiplicar, evitando a superinfecção”, explicou Sabrina Epiphanio.
O trabalho mostrou que, quanto mais células eram infectadas na circulação, mais aumenta a concentração de hepcidina, que se encarrega de retirar ferro da circulação, tornando as células hepáticas carentes em ferro e impedindo a superinfecção.
“Quando utilizamos drogas que bloqueavam a produção da hepcidina – tanto in vivo como in vitro–, o fenótipo era revertido, isto é, os níveis de ferro se mantinham e a segunda infecção se tornava tão severa como a primeira”, disse.
A principal contribuição do trabalho, segundo Epiphanio, poderá ser o seu impacto nas políticas públicas mundiais de suplementação de ferro em áreas onde há grande incidência de anemia. Em muitos casos, essas áreas coincidem com as zonas endêmicas de malária.
“A administração de ferro em crianças anêmicas nessas regiões pode contribuir para a incidência de superinfecção de malária nas áreas endêmicas. A literatura registra que em Zanzibar, na África, programas de prevenção da anemia que contavam com a suplementação de ferro foram seguidos de aumento dos índices de malária”, disse Epiphanio.
O artigo Host-mediated regulation of superinfection in malaria, de Silvia Portugal e outros, pode ser lido por assinantes da Nature Medicine emwww.nature.com/nm/journal/v17/n6/full/nm.2368.html

sábado, 21 de maio de 2011

O lado positivo da malária: evitar uma superinfecção



Pesquisadores descobrem que a infecção pelo parasita da doença previne uma piora no caso de outras picadas
Isis Nóbile Diniz
Edição Online - 20/05/2011 
© SABRINA EPIPHANIO

Parasita no fígado, ao microscópio
Há cerca de 50 anos, acreditava-se ser possível erradicar a malária do planeta. A solução parecia simples: eliminar o mosquito transmissor e tratar os infectados. Porém, a Organização das Nações Unidas (ONU) alerta que, atualmente, mais de 780 mil pessoas – a maioria crianças – morrem por ano em consequência da doença. Um estudo publicado na Nature Medicine, em 15 de maio de 2011, liderado pela bióloga Maria Mota, do Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa, Portugal, pode ajudar a diminuir essa mortalidade. O grupo descobriu que a infecção pelo parasita da malária previne a ocorrência de uma segunda infecção por outro parasita da doença, devido à restrição de ferro no fígado do organismo da pessoa contagiada. Assim, a primeira infecção impede que outras ocorram no indivíduo ao mesmo tempo, ou seja, evita uma “superinfecção”.
A malária é causada por protozoários do gênero Plasmodium transmitidos pela fêmea infectada do mosquito Anopheles. A doença é típica de países tropicais onde as populações são carentes economicamente e quase não dispõem de sistemas de saúde. É o caso da África Subsaariana, região com alto índice de ocorrência da malária onde é comum governo e grupos assistenciais oferecerem às crianças suplementos alimentares para combater outros problemas como a desnutrição e a anemia. O grupo luso-brasileiro mostrou que esse suplemento, que deveria fortalecer a saúde, na realidade prejudica as crianças que foram infectadas várias vezes seguidas pela malária. Estas que recebiam ferro como suplemento alimentar apresentavam mais casos de “superinfecção” pela doença, um detalhe que intrigava os médicos e os cientistas até a pesquisa atual solucionar esse quebra-cabeça.
Utilizando camundongos, o grupo entendeu a forma como os parasitas da malária se desenvolvem nas células do fígado (hepatócitos) e nos glóbulos vermelhos. Após a picada do mosquito infectado, os parasitas migram para o fígado do indivíduo onde se multiplicam (fase hepática e assintomática da infecção). Em seguida, invadem os glóbulos vermelhos (fase sanguínea e sintomática). Em ambas as fases, os parasitas necessitam de ferro para se desenvolver e os da primeira infecção, já presentes nos glóbulos vermelhos, sequestram o ferro na circulação sanguínea impedindo que a substância seja abundante no fígado. Com isso, os parasitas da segunda picada, no fígado, têm menos ferro disponível e não conseguem se multiplicar. Como consequência, a segunda infecção é incompleta. Em outras palavras, o risco de a pessoa apresentar uma superinfecção é menor graças à primeira infecção.
“O trabalho é importante por ser um dos raros que aborda a fase hepática e sanguínea ao mesmo tempo, simulando uma situação de áreas endêmicas”, explica a veterinária Sabrina Epiphanio, do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que colaborou com o estudo. Geralmente, os pesquisadores estudam separadamente cada fase da infecção por malária. Porém, quem vive em locais onde a doença ocorre é constantemente picado e contaminado por vários parasitas ao mesmo tempo.
“Este é o momento de reverem os programas destinados às crianças das áreas endêmicas”, alerta a veterinária. De acordo com a Sabrina, o ferro é o principal elemento usado para suplementação mineral, o que favorece a fase hepática da segunda infecção. “Se a criança estiver com anemia e ingerindo ferro, contrair malária poderá piorar seu estado de saúde”, afirma Sabrina. Há nove anos estudando a doença, o próximo passo da pesquisadora é identificar fatores que antecipem quando uma pessoa, com malária, terá a síndrome respiratória aguda. “Apesar da incidência baixa, ela é altamente relevante porque 70% dos que adquirem morrem”, lembra.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Método para controle da malária


Divulgação Científica

Método para controle da malária
Estudo testa mistura que usa fungos patogênicos para matar larvas de mosquitos antes que esses se desenvolvam e possam transmitir a doença

22/2/2011
Agência FAPESP – Um estudo que será publicado na revista Parasites and Vectorsindica um método que usa fungos patogênicos como alternativa para prevenir a proliferação da malária. A proposta é usar esporos flutuantes para matar as larvas dos mosquitos antes que esses possam transmitir a doença.
Há mais de 200 milhões de casos de malária a cada ano, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, e a doença foi responsável por cerca de 780 mil mortes em todo o mundo em 2009. No Brasil, são cerca de 500 mil casos por ano. A malária é transmitida por mosquitos que procriam em corpos d’água e passam boa parte de seu estágio larval se alimentando de fungos e de outros microrganismos presentes na superfície da água.
O plasmódio, parasita que causa a malária, é transmitido para os humanos junto com a saliva do mosquito (geralmente do gênero Anopheles) durante a picada. No corpo humano, o parasita invade o fígado e atinge as hemácias.
Uma vez infectado, é difícil para o hospedeiro humano se recuperar porque algumas espécies de plasmódio são capazes de permanecer dormentes e evitar as drogas contra a malária. Esses parasitas também estão se tornando resistentes às drogas tomadas para evitar infecções.
De acordo com Tullu Bukhari e colegas do Laboratório de Entomologia da Universiidade Wageningen, na Holanda, um modo alternativo para reduzir o risco de infecção por malária é matar os mosquitos. Fungos, como as espécies M. anisopliae e B. bassiana, causam uma doença conhecida como muscardina nas larvas dos mosquitos, levando à morte dos insetos antes que eles se desenvolvam até o estágio adulto.
Os cientistas empregaram um óleo sintético como base para dispersar esporos fúngicos na superfície da água. Segundo eles, o óleo melhora a dispersão de esporos e o preparo aumenta tanto a persistência como a eficácia dos esporos. Nos testes feitos pelo grupo, no Quênia, houve morte de 50% mais larvas do que com esporos sem óleo e uma redução de 20% nos estágios de desenvolvimento dos mosquitos.
“Esses fungos oferecem um modo eficaz para controlar os mosquitos que transmitem a malária. E tanto os esporos como o óleo oferecem riscos mínimos para os peixes e demais organismos aquáticos e se mostraram ambientalmente seguros”, afirmou Bukhari.
O artigo Development of Metarhizium anisopliae and Beauveria bassiana formulations for control of malaria mosquito larvae, de Tullu Bukhari e outros, poderá ser lido em www.parasitesandvectors.com

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Halting the World's Most Lethal Parasite: Immunizing Mosquitoes and Other 'Crazy' Anti-Malaria Ideas

A new malaria vaccine, a plan to immunize mosquitoes and other "crazy" ideas have brightened prospects for vanquishing this killer


Right now, somewhere in the world—in a petri dish in Baltimore, maybe, or in the salivary glands of a laboratory-bred mosquito in Seattle, or in the bloodstream of a villager in Ghana—resides a chemical compound that could help eradicate human history’s biggest killer. Scientists have many promising malaria vaccine candidates in the works, and for the first time one has reached advanced human trials. If it or another candidate is even partly effective in people, it could save the lives of millions of children and pregnant women. It would be the only vaccine yet developed against a human parasite, an achievement of Nobel caliber. And it could, in its first-generation form, be distributed in Africa as soon as 2015.
“If all goes well, five years from today, a vaccine could start being implemented in a wide way in six- to 12-week-old children,” says Joe Cohen, a scientist who is leading some of the most promising research. “It is a fantastic achievement. We are all very proud of that.” This is an extraordinary moment for malaria vaccine research. So why isn’t Regina Rabinovich singing from the rooftops?
DEADLY CARGOThe Anopheles mosquito carries the malaria parasite responsible for disease and death in much of the tropics.Image: EVA-MARIA PASIEKA Corbis

In Brief

  • Vaccines against malaria have encountered repeated failures. New technolo gical approaches have revived the push for an agent that would provide lifelong immunity.
  • Late-stage clinical trials will finish this winter on a vaccine that has been under development since the 1980s. It could reduce cases of the most lethal form of malaria by half.
  • Even as this work moves forward, researchers are proceeding with other strategies for new vaccines, such as a weakened form of the parasite that is cultured in mosquitoes.
  • Because malaria has been so hard to fight in the past, researchers must moderate outsize expectations to keep hopes from being dashed yet another time if new vaccine candidates fail.


quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Equipe da Unicamp derruba a ideia de que existe uma forma branda da malária

 Por muito tempo considerado um parasita pouco agressivo, oPlasmodium vivax na verdade pode causar complicações graves, além dos violentos acessos de febre que caracterizam todos os tipos de malária. À frente de uma equipe internacional, o parasitologista Fabio Trindade Maranhão Costa, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), agora explica por quê. Os plasmódios vivax têm a capacidade de aderir às células do doente, causando danos até agora imputados apenas a seu parente mais mal-afamado, o Plasmodium falciparum.
A equipe identificou essa característica usando parasitas recém-retirados do sangue de pacientes do hospital da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas, em Manaus, e fez testes usando células de pulmão humano e de cérebro de macacos-de-cheiro, ambas mantidas em cultura, além de cortes de placenta humana recolhida depois do parto. Os resultados desses experimentos, publicados no Journal of Infectious Diseases, mostram que os parasitas P. vivax aderem às células mesmo quando submetidos a um fluxo de líquido, simulando a situação que enfrentam dentro de um vaso sanguíneo. É provavelmente essa a explicação para as notificações, cada vez mais comuns nos últimos 10 anos, de complicações – como problemas pulmonares ou convulsões – em casos de infecção porvivax.
“Não existe parasita benigno”, sentencia Costa. Embora faça sentido pensar que um organismo que infeste outro cause sempre algum efeito nocivo, até pouco tempo atrás oPlasmodium vivax não era levado muito a sério. Ele não tem em sua superfície as estruturas, chamadas knobs, características de P. falciparum e consideradas essenciais para que o microinvasor se ancore às células humanas e dê origem a um processo inflamatório que danifica os tecidos e pode levar à morte, ou a um aborto quando a infectada é uma mulher grávida.
Havia também outro motivo para os pesquisadores não suspeitarem que o Plasmodium vivax aderisse às células. É que não observavam o fenômeno chamado sequestro – o desaparecimento dos parasitas adultos durante a segunda metade de seu ciclo de vida. O sequestro já é bem conhecido em falciparum: os parasitas não aparecem no sangue porque estão agarrados ao revestimento interno dos vasos sanguíneos, o endotélio. Como o sangue dos infectados com vivax apresentam parasitas adultos em qualquer fase do ciclo de vida, até agora se considerava que ele fosse menos agressivo.
Os pesquisadores se conformaram com esses indícios indiretos por causa de uma dificuldade técnica nada trivial. Desde os anos 1970 os parasitologistas conseguem cultivar, em hemácias humanas no laboratório, colônias de P. falciparum, que se reproduzem e mantêm a capacidade de infectar. Mas o vivax é mais exigente e se recusa, ainda hoje, a viver em condições artificiais.
Costa superou essa adversidade usando parasitas recém-colhidos de pacientes e descobriu que os plasmódios vivax aderem às células endoteliais, porém cerca de 10 vezes menos do que os falciparum. Mas, uma vez aderidos, ambos os tipos de plasmódio têm a mesma capacidade de se manter colados às células. “Ainda não sabemos exatamente como os vivax aderem, mas parece ter relação com genes chamados vir, uma família gênica muito variável nos plasmódios”, conta o parasitologista da Unicamp.
Como o parasita não se adapta às condições de laboratório, só é possível fazer esse trabalho nas regiões endêmicas – no Brasil, o ideal é Manaus, onde é tratada boa parte dos pacientes da região amazônica. Para esse trabalho, Costa contou com a colaboração de dois colegas locais: o médico Marcos Lacerda, da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas, e Paulo Nogueira, da Fundação Oswaldo Cruz. “Sem eles, o trabalho não teria sido possível”, afirma o pesquisador da Unicamp, que pretende investir seu financiamento de pesquisa para aprimorar as condições de trabalho em Manaus. Os próximos passos da pesquisa exigirão uma infraestrutura adequada para ensaios biológicos mais sofisticados. Costa também espera, em Manaus, examinar amostras de tecidos de pacientes que morreram por causa da malária e desenvolver métodos para estudar in vitro os processos inflamatórios desencadea dos por vivax.
Impacto – Entender o funcionamento do Plasmodium vivax tem um enorme impacto potencial em saúde pública. No mundo todo 2,85 bilhões de pessoas – a maior parte na Ásia – correm risco de serem infectadas por essa espécie do parasita, responsável por 85% dos casos de malária no Brasil. “E essa proporção vem aumentando”, acrescenta Costa. O mais preocupante é que a variedade de vivax predominante no país já começa a demonstrar sinais de resistência aos medicamentos contra a malária, como a cloroquina. Analisando o sangue de pessoas com malária na Amazônia, a equipe do médico Marcelo Urbano Ferreira, da Universidade de São Paulo (USP), verificou que existe grande diversidade entre as variantes de vivax existentes no Brasil, que são claramente distintas daquelas encontradas, por exemplo, na Ásia. Esses achados podem ajudar a explicar a resistência aos antimaláricos em algumas das áreas em que ocorre essa forma de malária.
Por enquanto, pelo menos, a descoberta do grupo de Campinas não aponta diretamente para novos fármacos. E não existem medicamentos eficientes que atuem diretamente contra a adesão em falciparum, apesar de o processo já ser bem conhecido. Mas o pesquisador não descarta que estudar esses mecanismos em vivax, sobretudo quando for possível estudá-los in vivo, talvez em macacos, deve levar a um conhecimento que ajudará no combate à doença. “É uma quebra de paradigma que vai abrir possibilidades gigantes de pesquisa, passamos a ver a patogênese provocada por esse parasita de maneira diferente”, prevê Costa.
Enquanto não se descobre como evitar a adesão dos plasmódios às células do endotélio e da placenta, a saída é buscar estratégias mais eficientes de combater os insetos que os transmitem para os seres humanos, como a elaborada recentemente pelo grupo de Marcelo Ferreira. Ao longo de alguns anos a equipe de Ferreira examinou todas as casas da comunidade de Granada, no leste do Acre, e constatou que apenas 22% delas concentravam 70% dos casos da doença. A aplicação de inseticidas em 25% das casas, em especial as que funcionam como foco de transmissão, já permitiria reduzir em dois terços os casos de malária, segundo estudo realizado pelo médico Natal Santos da Silva, da equipe de Ferreira, e publicado em maio na Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene. “Esperamos ter contribuído com evidências que ajudem a planejar novas intervenções de controle do mosquito transmissor da malária”, diz Ferreira.
> Artigos científicos

1. CARVALHO, B.O. et al. On the cytoa-dhesion of Plasmodium vivax-infected erythrocytes. Journal of Infectious Diseases. no prelo.
2. DA SILVA, N.S. et al. Epidemiology and control of frontier malaria in Brazil: lessons from community-based studies in rural Amazonia. Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene. v. 104 (5), p. 343-350. mai. 2010.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Malária no pulmão


Por Fábio de Castro

Malária no pulmão
Estudo realizado por pesquisadora da Unifesp desvenda mecanismo fundamental para o desenvolvimento da síndrome respiratória aguda associada à malária, que atinge principalmente crianças e mulheres grávidas

Agência FAPESP – As lesões respiratórias agudas estão entre os vários problemas de saúde causados pela malária. Esse comprometimento pulmonar atinge, com frequência, crianças de até 3 anos de idade e mulheres grávidas e pode gerar um quadro de insuficiência respiratória que leva à morte. Os mecanismos que desencadeiam essas lesões, no entanto, eram até agora desconhecidos.
Uma nova pesquisa desvendou um dos mecanismos fundamentais para o desenvolvimento da síndrome respiratória aguda associada à malária. Os resultados do estudo serão publicados na edição de 20 de maio da revista PLoS Pathogens.
De acordo com a autora principal do estudo, Sabrina Epiphanio – professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em Diadema (SP) –, o tema começou a ser estudado durante seu pós-doutorado, realizado entre 2003 e 2008 no Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa e no Instituto Gulbenkian de Ciência, ambos em Portugal e foi finalizado no Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP).
De volta ao Brasil, Sabrina, que atualmente é professora do Departamento de Ciências Biológicas da Unifesp, retomou o trabalho que deu origem ao artigo e à sua linha de pesquisa atual, que trata da identificação e caracterização da síndrome respiratória associada à malária em modelos animais. Para o projeto de pesquisa, conta com apoio do Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes da FAPESP.
     “Muitos relatos de casos envolvendo malária pulmonar têm sido descritos na região amazônica, além de em regiões africanas e asiáticas. Pela primeira vez conseguimos desvendar um importante mecanismo envolvido na injúria respiratória aguda associada à doença”, disse à Agência FAPESP.
Alguns dos experimentos envolvidos no trabalho, de acordo com Sabrina, foram desenvolvidos em parceria com Claudio Marinho, professor do Departamento de Parasitologia do ICB-USP, que estuda – também com apoio do Programa Jovens Pesquisadores – os mecanismos imunopatológicos envolvidos na malária durante a gravidez.
     “A síndrome respiratória não é muito frequente, mas quando ocorre muitas vezes leva à morte. Além de acometer muitas crianças e mulheres grávidas, o problema também atinge amplamente os pacientes logo após o tratamento antimalárico. Ainda não sabemos por que isso ocorre”, explicou.
Segundo Sabrina, além de descobrir que um importante mediador inflamatório conhecido como VEGF está diretamente envolvido no desenvolvimento das lesões pulmonares, o trabalho propõe um novo modelo para futuros estudos das afecções respiratórias associadas à malária.
“Começamos trabalhando com outro enfoque, testando parasitas da malária em diferentes linhagens de camundongo. Mas observamos que determinada linhagem desenvolvia a síndrome respiratória aguda. Isso nos motivou a começar os estudos, já que não havia um modelo animal definido para isso. Desenvolvemos o modelo e começamos a montar um verdadeiro quebra-cabeça para descobrir os mecanismos que desencadeiam a síndrome”, disse Sabrina.

Monóxido de carbono

     O VEGF (sigla em inglês para fator de crescimento endotelial vascular) é uma molécula responsável pelo aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos. Os pesquisadores observaram que sua presença promovia o aumento da permeabilidade vascular no pulmão, gerando edemas e hemorragias característicos de uma injúria pulmonar aguda.
     “Utilizamos várias técnicas para desvendar os mecanismos. Observamos, por exemplo, que havia aumento do VEGF no soro dos animais que desenvolviam a síndrome respiratória. Depois utilizamos adenovírus que bloqueavam os receptores solúveis de VEGF e observamos que, com isso, o mediador inflamatório voltava aos níveis basais e o animal não desenvolvia o problema pulmonar”, explicou.
     Os cientistas utilizaram também o monóxido de carbono – que é uma molécula anti-inflamatória – para tratar os animais, conseguindo uma reversão do processo de injúria respiratória aguda. “O monóxido de carbono tem uma potente ação anti-inflamatória, antiapoptótica e antiproliferativa. Com ele, revertemos o quadro clínico dos animais, que não chegaram a desenvolver a síndrome”, disse Sabrina.
     Depois de desvendar o mecanismo crucial para o desenvolvimento da lesão respiratória associada à malária, os cientistas agora querem entender melhor a síndrome em relação a outros fatores inflamatórios. “O principal objetivo é avançar nos estudos com esse modelo que desenvolvemos e também gerar outros modelos, de forma a compreender cada passo do processo”, afirmou.
Segundo Sabrina, na década de1970 havia sido proposto um modelo animal com outra linhagem de camundongos, mas sua eficiência foi criticada e sua aplicação não evoluiu. “Consideramos que conseguimos desenvolver o primeiro modelo realmente eficiente”, disse.