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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Sherlocks da natureza: insetos ajudam a desvendar crimes


Vilma Homero
 Divulgação
 
  Investigação inteligente: Janyra Oliveira da Costa está organizando,
     com sua equipe, um banco de dados de entomologia forense
Se não são exatamente detetives com asas, certos tipos de mosca podem ajudar peritos criminalistas a descobrir exatamente como, quando e de que forma alguém foi assassinado. Para elas, não importa se, nas tentativas de dificultar o trabalho policial, o corpo tenha sido carbonizado, jogado na água para lavar evidências ou oculto em lugares distantes do local do crime. Esses Sherlocks alados tudo conseguem desvendar. Basta que os detetives da vida real tenham material adequado para entender o que esses insetos têm a revelar. Exatamente por isso, a pesquisadora Janyra Oliveira da Costa, do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), desde 2005, vem montando um banco de dados de entomologia forense, que reúne vários tipos de análise para comparação. Trabalho que recebeu, no ano passado, recursos do edital de Apoio à Inovação Tecnológica, da FAPERJ.
Conhecida popularmente por varejeira, a mosca Chrysomia albiceps sempre é encontrada em cadáveres. Como ela, certos tipos de inseto são atraídos por material em decomposição, característica que vem sendo usada como recurso na criminalística dos Estados Unidos e de vários países europeus, que já contam com bancos de dados bastante completos. Isso, no entanto, de nada adianta para o Brasil e outros países da América do Sul, já que as espécies se comportam de forma diferente não só de um país para outro, mas mesmo de um estado ou de uma cidade para outra, dadas as diferenças de clima e vegetação. "Se em áreas urbanas do Rio de Janeiro, o limiar de desenvolvimento de uma Chrysomia se dá a temperaturas entre 12 a 15 graus, por exemplo, no Rio Grande do Sul, esse limiar pode ser algo entre 7 e 8 graus", exemplifica Janyra.
Como explica a pesquisadora, o protocolo básico da entomologia forense exige que se faça, pelo menos, um experimento utilizando um modelo animal, em geral, o porco, por sua semelhança com o homem – para que se conheça o comportamento dos insetos em humanos. "Precisamos não só identificar as várias espécies presentes nas diferentes regiões do estado, como também especificar o período de decomposição que atrai cada uma delas. Ou seja, mostrar que espécie chega em um corpo e quando", explica Janyra.
 Divulgação
 
 Insetos coletados em corpos revelam   
    como e quando alguém foi morto
E eles chegam quase imediatamente após a morte. Sem que se perceba, começam a colocar ovos nos orifícios naturais do corpo, especialmente boca, narinas e ouvidos. Cada estágio de decomposição corresponde à presença de diferentes tipos desses insetos, já que, por suas características, eles costumam preferir determinadas características físico-químicas – que, nesse processo, estão sempre mudando – do cadáver. Mas como algumas famílias de insetos como a mosca Sarcophagidae são de difícil identificação, a pesquisadora conta com a ajuda de três especialistas de áreas distintas. Para a identificação das espécies de insetos, Janyra tem a parceria das taxonomistas Cátia Antunes Mello-Patiu e Márcia Couri, do Museu Nacional, mas quando se trata de coletar e analisar material molecular, entra em cena o geneticista Rodrigo Moura Neto da UFRJ.
A partir daí, será possível dizer, por exemplo, quem é o cadáver. "Numa cidade como o Rio de Janeiro, que costuma ser quente, em dois ou três dias um corpo começa a ficar inflado, com odor forte, já em fase gasosa. Nesses casos, ele perde material para coletar digitais, então a identificação tem que ser genética", diz Janyra. Cadáver inflado também significa que o material se encontra muito misturado, contaminado. Mas isso não chega a ser problema para as moscas detetives. "Graças a um processo digestivo muito particular, esses insetos nos auxiliam em qualquer circunstância. Como têm um sistema digestório compartimentalizado e no primeiro compartimento, os tecidos ingeridos não sofrem influência de enzimas digestivas e permanecem absolutamente preservados, é possível recolhê-los para análise. O material que estiver ali será única e exclusivamente do cadáver", explica.
 
 Chrysomia albiceps: sempre presente em cadáveres
Segundo Janyra, isso também vale para crimes sexuais. Como as moscas preferem se alojar e pôr ovos nos orifícios naturais do corpo, no caso ânus e vagina, tudo o que ingerirem dessa área ficará igualmente preservado em seu primeiro compartimento digestivo. Se houver sêmen, por exemplo, ele será ingerido e mantido preservado na primeira seção digestiva. "Na verdade, ao comer, esses insetos se encarregam de fazer a coleta de material para que possamos depois analisar", diz a pesquisadora.
Outras duas questões que podem ser respondidas pelos insetos são "quando?" e "onde?". A primeira, para se determinar o dia da morte, pode ser respondida pelo tempo de desenvolvimento das larvas de mosca. "Como sabemos que as moscas chegam e colocam ovos no mesmo dia da morte, o estágio de desenvolvimento das larvas nos indica o tempo de morte", fala Janyra. Saber o onde também é questão de se conhecer as espécies endêmicas de cada área, sejam urbanas ou rurais. "Se alguém foi morto na cidade e seu cadáver levado para uma região de serra numa tentativa de ocultação de corpo, por exemplo, mesmo assim os insetos nos dirão. Será o caso de recorrer ao banco de dados para identificar de que áreas são as moscas coletadas. Se divergirem da região em que o corpo foi encontrado, é sinal de que ele não foi morto ali", explica.
  Divulgação
    
     O protocolo básico da entomologia forense exige pelo menos a   realização de um experimento com modelo animal, no caso, porco  
Mesmo em estágios avançados de decomposição, esses corpos não escapam de exames toxicológicos, ou de análises para determinação da causa da morte. Heroína, anfetaminas, cocaína, crack ou carbamato, o popular chumbinho, podem perfeitamente ser detectados nas larvas. Da mesma forma, vestígios de chumbo, bário e antimônio são detectáveis e sua presença indica ferimento por arma de fogo, mesmo que esse ferimento tenha sido transfixante – ou seja, o projétil tenha entrado e saído sem ser encontrado. Também não adianta carbonizar o corpo ou atirá-lo na água. "Apesar das condições de calor, odor de combustível e ausência de umidade, se ainda houver tecido, certas espécies de moscas atrasam, mas mesmo assim aparecem. Além disso, há certos tipos de besouro que são atraídos pelos ossos. Também um cadáver afogado atrai determinados tipos de inseto. Basta saber identificá-los e saber a que estágio de decomposição eles correspondem.
Certas situações, no entanto, podem confundir os especialistas. O caso de alguém enforcado, por exemplo. "É que num corpo pendurado, os insetos, como tudo o mais, sofrem a ação da gravidade e caem. Isso pode prejudicar a avaliação do tempo de morte, como aconteceu numa avaliação que fizemos para o Instituto de Criminalística. Enquanto as testemunhas diziam que o morto estava desaparecido há 15 dias, o legista avaliava o estágio de decomposição em uma semana. Isso porque nessa posição, pendurado, a decomposição é mais lenta."
O trabalho, que vem sendo feito desde 2005, teve novo impulso com a aquisição de equipamento e, mais tarde, com a compra dekits para processamento de análises. "Os estagiários da equipe também estão digitalizando as análises e passando para o banco de dados", conta Janyra. Com isso, a perícia criminal definitivamente está ganhando um grande aliado. "Ainda há poucos grupos trabalhando com entomologia forense no país. Além do nosso, no Rio, há o pessoal da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Universidade de Brasília (UNB), o pessoal da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e o pessoal do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Acredito que, aos poucos, isso vá mudando. Afinal, precisamos recorrer aos insetos porque eles contam toda a história."

© FAPERJ – Todas as matérias poderão ser reproduzidas, desde que citada a fonte.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Insetos como provas criminais


Insetos como provas criminais
Projeto Temático conduzido na Unicamp faz levantamento de insetos cuja ação em corpos em decomposição pode ajudar a esclarecer as circunstâncias de mortes (divulgação)


22/10/2010

Por Fabio Reynol
Agência FAPESP – Eles costumam ser os primeiros a encontrar um cadáver. Dotados de órgãos ultrassensíveis a odores, certos insetos da ordem dos dípteros chegam ao local de uma morte em cerca de dez minutos. Essa rapidez faz com que essas criaturas sejam importante instrumento para se determinar a data da morte – ou intervalo pós-morte no jargão técnico – e ajudar a esclarecer crimes.
Os insetos podem indicar movimentação no corpo e a presença de substâncias químicas, além do local e até mesmo o modo e a causa da morte. Essas informações ainda podem associar suspeitos à cena do crime.
Por essas razões, a entomologia forense é uma especialidade importante para a criminalística e foi tema de um Projeto Temático apoiado pela FAPESP e coordenado pelo professor Arício Xavier Linhares no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Uma das principais contribuições da pesquisa foi o levantamento das espécies de insetos de interesse forense presentes no Estado de São Paulo. “Esses dados são muito valiosos, pois uma discrepância entre a espécie encontrada em um cadáver e a fauna de insetos da região pode indicar que o corpo foi transportado de um lugar para outro”, disse Linhares à Agência FAPESP.
O censo faunístico foi feito em diferentes regiões do estado e envolveu vários mestrandos e doutorandos. Os dados levaram em conta as migrações dos insetos e diferentes ambientes: urbano, rural e silvestre.
“Tínhamos apenas uma ideia das espécies presente em São Paulo, mas não sabíamos com exatidão a sua distribuição pelos diferentes biomas e regiões do Estado”, explicou. O banco de dados obtido pode ser usado como parâmetro para investigações criminais.
O grupo também realizou estudos de sucessão biológica, que investigam cronologicamente as espécies de insetos que frequentam carcaças em cada estágio de decomposição.
Para capturar espécies necrófagas de interesse forense, os pesquisadores utilizaram armadilhas feitas com carcaças de peixe ou fígado de frango ou bovino. Somente na região de Botucatu foram coletados 12.363 insetos entre fevereiro de 2006 e fevereiro de 2007, que foram identificados e catalogados em 12 diferentes famílias.
As espécies mais importantes encontradas foram criadas em laboratório e os cientistas observaram o seu desenvolvimento em ambientes com diferentes temperaturas a fim de se obter um padrão a ser aplicado em investigações criminais.
Na segunda parte do projeto foram estudados os efeitos de diversos tipos de drogas no desenvolvimento desses insetos. Substâncias como barbitúricos, anfetaminas, cocaína, antidepressivos, esteroides e antidiazepínicos foram aplicados em indivíduos imaturos de diferentes espécies.
A presença de uma determinada droga em um cadáver pode alterar o desenvolvimento da larva, gerando uma leitura falsa do intervalo pós-morte, entre outros dados.
“Descobrimos que barbitúricos e benzodiazepínicos retardam o desenvolvimento das larvas, enquanto que cocaína e anfetaminas apresentam efeito contrário: aceleram o crescimento”, disse Linhares.
Com o padrão de desenvolvimento levantado para cada espécie de inseto é possível determinar a vida da larva encontrada em horas, por meio de medições de peso e comprimento. No entanto, se a vítima ingeriu barbitúricos antes da morte, a droga diminui o ritmo de crescimento da larva, apresentando uma leitura falsa do intervalo pós-morte.
“Nosso estudo permitiu estimar qual é o desvio que cada droga provoca no desenvolvimento de diferentes espécies e, com isso, pudemos aplicar os desvios ao padrão para obter o horário correto do óbito”, disse Linhares. O levantamento engloba uma tabela com o tempo que cada larva leva para se desenvolver em diferentes faixas de temperatura.
Perfil cuticular
A detecção das substâncias químicas nos insetos é feita por meio de técnicas como cromatografia gasosa ou espectrometria de massas. O grupo na Unicamp aplica essas técnicas em diversos casos nos quais é convidada pela polícia civil a auxiliar nas investigações.
Em um dos casos, o grupo averiguou uma morte com suspeita de overdose. Amostras de tecidos foram retiradas do corpo da vítima e larvas de insetos necrófagos foram alimentadas com esse material. A suspeita se confirmou quando a equipe identificou metabólitos para cocaína nas larvas empregadas.
Outro avanço importante obtido com o Projeto Temático foi o levantamento do perfil cuticular dos insetos. Presente em todas as fases da vida do inseto, a cutícula é formada por hidrocarbonetos cuja composição pode variar dentro de uma mesma espécie de acordo com a região geográfica que habita.
“Uma mosca capturada em Presidente Prudente poderá não ter o mesmo perfil cuticular de outro indivíduo da mesma espécie encontrado em Ubatuba”, exemplificou Linhares. Por esse motivo, o banco de perfis cuticulares levantado na pesquisa poderá ser usado para identificar a localização de uma morte dentro do Estado de São Paulo.
A cutícula dos insetos ainda fornece outra informação valiosa para a ciência forense: a identificação da espécie em indivíduos imaturos. Mas o professor da Unicamp ressalta que isso ainda é um grande desafio para a pesquisa.
Ao deparar com ovos ou larvas de insetos, o cientista muitas vezes não consegue dizer de qual espécie são aquelas amostras. Nesses casos, o perfil cuticular funcionará como uma impressão digital da espécie, com a vantagem que ovos e larvas também possuem o mesmo perfil.
Geralmente, os cientistas coletam exemplares imaturos encontrados nos corpos para cultivá-los em laboratório e identificar a mosca quando ela chegar à fase adulta. Mas algumas vezes os cadáveres são lavados e as larvas acabam morrendo. O perfil cuticular é uma alternativa para esses casos.
Outra técnica utilizada para identificação de espécies é a reação em cadeia de polimerase, método da biologia molecular que permite levantar sequências de base de DNA e compará-las aos padrões das espécies levantados.
Apesar de a equipe da Unicamp contar com diversos recursos para apoiar investigações forenses, Linhares lamenta não existir ainda uma cultura de colaboração mais intensa entre a universidade e os serviços policiais de investigação. “Só recentemente a polícia técnica começou a contratar por seus concursos especialistas com mestrado e doutorado em entomologia forense”, disse.